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Estudo da Embasa aponta potencial de reúso de efluente tratado para agricultura e indústria

O reúso de efluentes sanitários é uma alternativa para um destino sustentável, com vantagens sociais e econômicas, para o esgoto produzido no Brasil. É o que apontam os resultados iniciais de um estudo pioneiro que a Embasa contratou para avaliar as possibilidades de aproveitamento do esgoto tratado, em sua área de atuação. Previsto para ser concluído em novembro, o estudo foi contratado por meio de cooperação técnica internacional entre a Embasa, o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores.

Somente na Bahia, em um cenário conservador, o potencial de reúso apontado pelo estudo é de 1.391,2 l/s (litros por segundo), sendo 916 l/s para uso na agricultura e 475 l/s, na indústria. O destaque é para o pólo industrial de Camaçari, com potencial misto para reúso de 250 l/s (190 l/s na indústria e 42 l/s em usos agrícolas), de acordo com resultados preliminares do Estudo de Avaliação das Potencialidades de Reúso de Efluentes Sanitários Tratados no Estado da Bahia.

Caso se considere um cenário ideal, o potencial no estado sobe para 3.693 l/s no total, sendo 3.104 l/s para uso agrícola e 589 l/s para o uso industrial. Esses números foram apresentados na  quarta-feira (22/07) no 1º Webinar sobre o tema, realizado pela Embasa, IICA e pela empresa Worley (Brasil/EUA), que venceu a licitação internacional para conduzir o estudo.

O objetivo do estudo é levantar o potencial de reúso para o estado, seus municípios e regiões, considerando o uso intensivo em agricultura, desenvolvimento do semiárido e uso industrial da Região Metropolitana de Salvador. Segundo o coordenador do estudo pela Embasa, Julio Mota, para a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Luís Eduardo Magalhães,  há tratativas para aplicação da água de reúso em projeto de irrigação de mudas para recuperação de áreas degradadas. A ETE de Vitória da Conquista tem o maior potencial de reúso, em termos de quantidade, e possui grande criticidade hídrica. A ETE Iraquara, em fase de projeto, possui aplicação da água de reúso para o plantio de bananeiras na área da ETE, e a estação de Guanambi prevê projeto de reúso agrícola.

Segundo José de Souza, da Embasa, embora o foco do estudo da Bahia não seja o uso urbano, a inclusão das operações de reúso da ETE do grupo de hotéis e resort Iberostar no levantamento confirma o potencial da prática para este fim. Atualmente, a experiência de reúso em operação da ETE Iberostar, no litoral norte da Bahia, opera com vazão média de 35 l/s de reúso para irrigação dos campos de golfe dos hotéis.

Universalização e Segurança Hídrica - Levando em conta a previsão do Marco Legal do Saneamento, a meta é o Brasil chegar a 2033 com 90% dos domicílios com coleta e tratamento de esgoto.  Mas, segundo Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB) divulgada ontem pelo IBGE, 39% dos municípios brasileiros não possuem serviços de esgotamento sanitário por rede coletora.

De acordo com Cristina Costa, especialista em Recursos Hídricos do IICA, que coordena o estudo pelo organismo internacional, não existe uma solução única para universalizar os serviços de esgotamento sanitário ou para garantir a segurança hídrica, ou seja, é preciso analisar o contexto local e considerar um conjunto de soluções viáveis para garantir a segurança hídrica, com diversificação da matriz de oferta de água, verificando a viabilidade de iniciativas como reúso, dessalinização, águas subterrâneas, redução de perdas e despoluição de corpos d’água. Ela reforça que é possível considerar o reúso como uma das alternativas a serem consideradas na busca da universalização e destaca que o reúso deve fazer parte do portfolio nacional de fontes de água disponíveis para os diversos usos.

 “Além de ser uma prática de racionalização, o reúso permite reduzir a descarga de poluentes nos rios e conservar os recursos hídricos para o abastecimento público e outros usos mais exigentes com relação à qualidade da água”, disse Cristina. Segundo ela, a combinação estresse hídrico, rios poluídos, aumento da população e mudanças climáticas ameaça, cada vez mais, a disponibilidade de água.

Há vários níveis de tratamento de águas residuais, dependendo da finalidade de uso. A água de reúso pode ser utilizada para diferentes aplicações, como irrigação, usos urbanos não potáveis, usos industriais ou recarga de aquífero. De acordo com André Margutti, engenheiro da Worley, para o reúso agrícola já há parâmetros para a presença de metais em resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).  “Se há presença de coronavírus, por exemplo, a desinfecção pode remover, desde que consiga manter os níveis de coliformes exigidos”, disse.  No quesito regulação, o estado da Bahia é um dos mais adiantados do país, pois é o único que já possui critérios definidos em resolução para o reúso agrícola.

De acordo com a engenheira civil e ambiental Helene Kluber, da Worley, coordenadora executiva do estudo, o último estudo disponível, de 2008, apontou que havia cerca de 245 m³/s em reúso em 43 países. “Os Estados Unidos são o país que mais pratica, mas México e China investem cada vez mais, e também a Austrália, que sofre com efeitos graves das mudanças climáticas”, disse. Para ela, a prática dá valor ao efluente, pois as pessoas precisam de água para plantar e irrigar e o reúso dá esse elemento de valor para agricultura familiar.

“O reúso é importante porque responde à necessidade de atender com segurança às demandas hídricas ao mesmo tempo que permite o aperfeiçoamento dos serviços de esgotamento sanitário”, completou. Segundo ela, de acordo com balanço hídrico de 2016 da Agência Nacional de Águas (ANA), a Bahia é um dos estados com maior criticidade hídrica.  O estado também é um dos que possuem maior área inserida no seco semiárido e possui a quinta maior área irrigada do País.

No Brasil, o reúso ainda é incipiente, mas já é realidade e muitos países investem crescentemente nesta estratégia sustentável de garantir a segurança hídrica. “Cada vez mais o reúso vem fazendo parte do portfólio nacional de abastecimento de água, principalmente em regiões com escassez hídrica”, disse Cristina Costa.

 

 

Na foto, estrutura da ETE de Vitória da Conquista, estação da Embasa com maior potencial de aproveitamento do efluente.

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